Marcos Drumond

POTENCIAL DE USO DA CAATINGA (Parte 2)

Potencial madeireiro

Inventários florestais da região demonstram estoques lenheiros variando entre 7 e 100 m3 de lenha. Como fonte madeireira para a produção de lenha, carvão e estacas, destacam-se o angico, o angico-de-bezerro (Piptadenia obliqua (Pres.) Macbr.), a catingueira-rasteira (Caesalpinia microphylla Mart.), o sete-cascas (Tabebuia spongiosa), a aroeira (Miracroduon urundeuva Allemão., a baraúna (Schinopsis brasiliensis Engl.), a jurema-preta (Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret), o pau-d’arco (Tabebuia impetiginosa (Mart. ex DC.) Standl.), a catingueira-verdadeira (Caesalpinia pyramidalis Tul.), o sabiá sabiá (Mimosa caesalpiniifolia Benth.) e a umburana (Commiphora leptophloeos Engl.), dentre outras.

Diante da importância da aroeira e do umbuzeiro na economia dos agricultores, essas espécies foram proibidas de serem usadas como fonte de energia pela legislação florestal, a fim de evitar a sua extinção na região.

Potencial faunístico

Os mamíferos são de pequeno porte, sendo os roedores os mais abundantes. As espécies encontradas em maior número na Caatinga são aquelas que apresentam comportamento migratório nas épocas de seca. Algumas espécies já constam como desaparecidas, ou em processo de extinção, como os felinos (onças e gatos selvagens), os herbívoros de porte médio (veado-catingueiro e a capivara), a ararinha-azul, as pombas de arribação e as abelhas nativas, resultante da caça predatória e destruição de seu hábitat natural.

Com relação ao extrativismo vegetal, as principais espécies utilizadas são umbu, licuri e carnaúba (Copernicia cerifera Mart.). A produção extrativa do umbuzeiro alcança 20.000 toneladas de frutos por ano, com áreas de coleta espalhadas em todo o Nordeste brasileiro. A comercialização dos frutos do umbuzeiro, coletados por famílias de pequenos produtores ou assalariados agrícolas, é uma atividade crescente em algumas regiões do Nordeste, exceto em Alagoas e Maranhão. Apesar de sua importância socioeconômica, os trabalhos de pesquisa e, principalmente, de conservação genética da espécie, são incipientes. A produção nativa da carnaúba concentra-se nos estados do Ceará e Piauí, responsáveis por 80 a 90% da produção de cera brasileira, mas ainda pouco expressiva quando comparada à produção comercial. Já o ouricuri ou licuri, por ser uma palmeira totalmente aproveitável, vem sendo amplamente explorada desde os tempos coloniais. Essa extração vem causando a destruição dos licurizais nativos, que ainda são explorados em larga escala.

Hoje, a utilização da caatinga ainda se fundamenta em processos meramente extrativistas para obtenção de produtos de origens pastoril, agrícola e madeireiro. No caso da exploração pecuária, o superpastoreio por ovinos, caprinos, bovinos e outros herbívoros tem modificado a composição florística do estrato herbáceo, quer pela época quer pela pressão de pastejo. A exploração agrícola, com práticas de agricultura itinerante que incluem o desmatamento e a queimada desordenados, tem modificado tanto o estrato herbáceo como o arbustivo-arbóreo. E, por último, a exploração madeireira que já tem causado mais danos à vegetação lenhosa da caatinga do que a própria agricultura migratória.

As consequências desse modelo extrativista predatório se fazem sentir principalmente nos recursos naturais renováveis da Caatinga. Assim, já se observam perdas irrecuperáveis da diversidade florística e faunística, aceleração do processo de erosão e declínio da fertilidade do solo e da qualidade da água pela sedimentação. No que se refere à vegetação, pode-se afirmar que acima de 80% da caatinga são sucessionais, cerca de 40% são mantidos em estado pioneiro de sucessão secundária e a desertificação já se faz presente em, aproximadamente 15% da área.

Em recentes levantamentos na região, os dados de cobertura florestal demonstraram valores inferiores a 50% por Estado, devido à exploração extensiva das espécies para lenha e carvão, para suprir indústrias alimentícias, curtume, cerâmica, olarias, reformadoras de pneus, panificadoras e pizzarias. Em municípios da Chapada do Araripe, onde se localizam indústrias de gesso, o consumo de lenha atinge valores de 30.000 metros cúbicos por mês, o que resulta em um desmatamento de aproximadamente 25 hectares por dia, sendo a produção da vegetação nativa da região da ordem de 40 metros cúbicos por hectare, enquanto que o consumo de lenha por propriedade rural na região de Ouricuri-PE é de 51st.

Quanto ao problema de reposição florestal, os trabalhos de reflorestamento se concentram na exótica algarobeira (Prosopis juliflora (SW) DC), espécie importante quanto aos problemas de ordem energética e também como forrageira. Entretanto, face às facilidades de regeneração natural que a espécie vem encontrando na região, há o risco de ser invasora, principalmente nas áreas irrigáveis. Não houve reflorestamento utilizando espécies nativas da região.

Além das inúmeras justificativas para a conservação da vegetação da caatinga, baseadas na preservação da diversidade genética e na sua importância para outros recursos naturais como solo, água e fauna, o valor extrativista desse ecossistema é particularmente crucial em regiões onde há queimadas constantes, uso do solo e extração de madeira para diferentes finalidades. Portanto, a preocupação com a conservação dos recursos naturais é condição indispensável para se previr o uso regular da terra por seus proprietários, bem como descobrir e desenvolver métodos não destrutivos de usos dos recursos florestais que sejam aplicáveis à região. Dessa forma, torna-se evidente e urgente o conhecimento da flora, fauna, solo e clima, informações fundamentais para o desenvolvimento de quaisquer ações que venham a contribuir para um melhor planejamento de manejo, uso, conservação e enriquecimento da Caatinga.

Diante do exposto, algumas estratégias para o uso sustentável da Caatinga vêm sendo utilizadas, embora, haja a necessidade de se discutir novas propostas mais adequadas às condições regionais.