Em sua primeira viagem político-administrativa do ano, o senador Armando Monteiro Neto (PTB) visitou os municípios sertanejos de Cabrobó e Orocó, no início da semana. Em Cabrobó, ele concedeu uma entrevista onde fez um balanço do ano de 2011 e apontou desafios que serão enfrentados pelo país. Como não poderia deixar de ser, tratou de sucessão municipal.
Foi provocado, e respondeu, sobre o complicado processo no Recife e em Petrolina – apesar de fazerem parte da Frente Popular, nos dois municípios PT e PSB podem e até tendem a apresentar candidatos próprios.
GAZZETA DO SÃO FRANCISCO – No ano passado foi muito apontada sua tentativa de manter a agenda de visitas aos municípios do interior. Quando foi definida essa estratégia?
ARMANDO MONTEIRO NETO – Desde a campanha eu tinha uma constatação de que os senadores de Pernambuco, independentemente dos que eram mais contemporâneos da campanha, incorrem sempre ou correm o risco de se distanciarem muito porque o mandato é de oito anos. Quando os mandatos são longos você tende a se distanciar mais porque a nova eleição está mais longe. Tinha muitos municípios que diziam que nunca um senador tinha passado lá, então me impus esse compromisso se eleito fosse, procuraria manter um contato permanente com cada uma das microrregiões de Pernambuco.
GAZZETA – Esse contato é uma demanda dos municípios, mas imagino que também contribui para oxigenar o mandato.
ARMANDO MONTEIRO – Condição fundamental para que você tenha sintonia, sintonize seu discurso, sua agenda no congresso com as questões que são do interesse de Pernambuco que eu conheço ao longo da minha trajetória. Tenho uma visão geral dos problemas do estado, mas nunca você conhece verdadeiramente os problemas de cada uma das regiões, com suas especificidades, peculiaridades. Acho fundamental para que possa ter sintonia com o estado você manter esse contato frequente, permanente, com as diversas regiões.
GAZZETA – Qual avaliação o senhor faz do ano que passou?
ARMANDO MONTEIRO – Nós procuramos alinhar muito nossa agenda, nossa atuação às questões que a gente de alguma maneira percebe aqui. Por exemplo, acho que hoje há uma força muito grande do empreendedorismo privado, essa coisa da micro e pequenas empresas, as questões ligadas ao desafio da qualificação profissional, então pude atuar muito nessa direção.
Primeiro na atualização da chamada Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, o regime simplificado de tributação, atualizamos as faixas que estavam defasadas há oito anos; conseguimos o parcelamento de débitos tributários para aqueles que iam ser já excluídos do programa e aí conseguiram em face do parcelamento ficar no simples; conseguimos dobrar a receita para os que exportam, o valor exportado não entra no cálculo da receita limite, é como se dobrasse o valor. Também lutamos para incluir novas categorias no Simples, sobretudo da área de serviços, que não tinham sido contempladas na primeira versão, no momento que foi aprovada a Lei Geral.
Um outro ponto, no que diz respeito à qualificação profissional, o Pronatec, um programa lançado pela presidente Dilma, que pretende reduzir essa desconexão que existe hoje entre o ensino médio e o ensino técnico profissional. Esse programa contempla também a utilização de vagas do Sistema S. O governo fez um convênio com o sistema S pra ampliar esse esforço, serão 8 milhões de matrículas no ensino técnico profissionalizante até 2016. Além isso, tem o programa de escolas técnicas federais que está sendo implantado, então acho que esse é um foco de nossa atuação.
E outro ponto é o problema do crack. Tenho muita preocupação hoje com essa agenda que é uma agenda que rebate na segurança pública e na saúde e pude fazer, fui o único parlamentar que destinou integralmente a emenda de bancada para o programa de combate às drogas, R$ 100 milhões. A emenda de bancada vai ser contingenciada, mas pelo menos R$ 30 ou R$ 35 milhões serão liberados. Isso articulado com o programa que foi lançado aqui pelo Governo do Estado chamado Atitude, então um conjunto de ações de caráter social e educativo envolvendo a família do drogado, oferecendo capacidade de capacitação, cursos de educação, de capacitação para o jovem. É um programa interessante.
GAZZETA - Dentro dessa temática foi sancionada recentemente a Lei do Sistema Nacional Socioeducativo (Sinase). Qual a avaliação que o senhor faz ?
ARMANDO MONTEIRO – O Estatuto da Criança e do Adolescente já vai fazer 20 anos, foi um passo muito avançado no sentido da concepção do que se buscava, mas na verdade a experiência demonstrou depois que os programas socioeducativos de recuperação do menor infrator não tem nos estados uma metodologia comum. Você encontra situações muito díspares, há estados onde o programa avança mais e tem caráter mais efetivo e em outros você não tem quase nada. Então, o Sinase é uma tentativa de criar um programa com uma metodologia uniforme para o país com uma coordenação do governo federal, com uma avaliação e monitoramento das politicas dessa área feitas de maneira sistemática e com mais recursos de diversas fontes. Acho que o Sinase é uma boa aposta.
GAZZETA – O senhor concedeu uma entrevista a um jornal do Recife onde afirmou que o nome do prefeito João da Costa (PT) não aglutina a Frente Popular. O PTB vai apresentar nomes? Em outros municípios o tratamento será o mesmo?
ARMANDO MONTEIRO – O próprio prefeito João da Costa quando nos procurou semana passada, isso foi noticiado amplamente, fez uma autocritica. Ele disse que havia realmente um déficit de interlocução na gestão dele. Ou seja, ele não deu à interlocução política, a prioridade que deveria, com isso o prefeito ficou, essa é a minha impressão, numa posição sempre muito ensimesmada e há problemas na gestão também. No caso do prefeito João da Costa nem para o próprio partido dele ele aglutina. Nesse momento o que se constata é que há setores do PT que não aceitam a recondução do prefeito. Se ele não aglutina para dentro do próprio partido e não faz interlocução com os demais partidos da Frente, uma interlocução satisfatória, o resultado é que há uma sensação de certo isolamento politico do prefeito.
Você poderá até dizer que ele que reconheceu que havia esse déficit e pode até promover um grande esforço e recuperar esse tempo que perdeu, mas isso não é muito provável na medida em que o próprio calendário político eleitoral vai estabelecendo datas e prazos. Então, o que eu quis dizer é que a Frente Popular não pode ficar à mercê de uma posição que, de resto, corresponde à posição do prefeito e de setores do PT. Temos que construir na Frente Popular e buscar alternativas.
E eu me sinto numa situação confortável na medida em que o PTB não está impondo nomes. Eu já declarei que para conversar com outros partidos a primeira condição nossa é abdicar dos nossos nomes, podemos apoiar qualquer outro companheiro da Frente que reúna condições. Há nomes aí na Frente que podem ser colocados, eu colocaria o próprio nome do ministro Fernando Bezerra Coelho (PSB), que foi cogitado pelo partido e que pra mim é um quadro que ainda poderá se colocar no processo do Recife. Por que não? Tem densidade, tem uma experiência, uma bagagem. Tem outros nomes na Frente, o ex-vice–prefeito Luciano Siqueira (PCdoB), o deputado federal Paulo Rubens (PDT), o ex-deputado André de Paula (PSD), o deputado federal Eduardo da Fonte. Em suma, há alternativas dentro da Frente.
GAZZETA – Com tantos nomes o senhor advoga que a Frente deveria ter mais de um candidato?
ARMANDO MONTEIRO – Quando eu falo múltiplas quero ser rigoroso com a expressão, é mais de um. Ou seja, não significa dizer que vamos ter quatro ou cinco ou seis, que seria uma fragmentação indesejável, mas a ideia de que a gente deve ter mais de um candidato.
GAZZETA – Como o PTB tem discutido a sucessão nos demais municípios do interior?
ARMANDO MONTEIRO – Acho que a Frente Popular precisa ter a seguinte compreensão: cada partido tem legitimamente os seus interesses. Todos os partidos almejam conquistar o maior número possível de prefeituras, o meu próprio partido tem uma estratégia. Mas, como nós integramos uma Frente, se não tivermos a capacidade de harmonizar os interesses da Frente, vamos tensioná-la, correndo risco de criar dificuldades para o conjunto. Então, defendo a ideia de que, quando existirem candidaturas naturais, os interesses partidários não podem se sobrepor aos interesses da Frente. Veja que aqui em Cabrobó o PTB não fez nenhuma cobrança ao prefeito Eudes Caldas pelo fato de ele ter escolhido um candidato do PSB. Eu entendi que no plano local essa equação era, do ponto de vista politico, a mais recomendada para que você pudesse dar curso a um projeto político que vem dando certo aqui. Então nós, do PTB, nos sentimos muito bem contemplados com a candidatura de Auricélio que não é do partido, mas é da Frente. Espero que essa atitude que tivemos aqui em Cabrobó seja correspondida pelos outros partidos. Vamos sempre utilizar Cabrobó como uma boa referência de que é possível produzir sempre entendimento que fortaleça a própria Frente Popular.
GAZZETA – O senhor tem acompanhado a discussão em Petrolina onde PT e PSB advogam direito de apresentar candidato a prefeito?
ARMANDO MONTEIRO – Tenho acompanhado e até manifestei opinião em algum momento de que considerava essa filiação do deputado Odacy Amorim (PT) algo natural, afinal de contas ele migrou para um partido da Frente e migrou porque tinha suas razões. Precisamos ter a compreensão de que ninguém está rigorosamente preso a uma legenda. Sem querer entrar no mérito de inventariar responsabilidades que não me compete, o fato dele ter migrado para um partido da Frente é algo que vejo como uma coisa compreensível, razoável e tem legitimamente suas aspirações. Não vejo nenhuma dificuldade. Pelo contrário, acho que isso reforça a possibilidade de que a Frente Popular em Petrolina possa vir a eleger o prefeito. Vamos ter ao que parece lá (em Petrolina) mais de uma candidatura no nosso campo. E vejo também como muito forte e muito boa condição a candidatura do deputado Fernando Bezerra Filho (PSB), alguém sobre quem posso dar testemunho de que tem sido um parlamentar competente; jovem ainda, mas muito competente, com capacidade articulação. Vamos ter duas candidaturas robustas, fortes o que em si mesmo já nos coloca a perspectiva de que a Frente possa ganhar a eleição em Petrolina.
GAZZETA – Como fica o nessa composição?
MONTEIRO NETO – O PTB vai se posicionar. Vamos aguardar definição do processo, quando essa definição ocorrer em relação às candidaturas. O que posso dizer é que o PTB não deverá ter candidato próprio em Petrolina, agora o PTB vai apoiar uma das duas candidaturas do nosso campo.
GAZZETA – Pode compor a chapa indicado o vice?
ARMANDO MONTEIRO – É possível que sim.
GAZZETA – Quais as perspectivas para o ano de 2012?
ARMANDO MONTEIRO – O grande teste da presidente Dilma se dará em 2012. Em 2011 ela continuou a governar num ambiente de certo conforto no plano econômico, agora 2012 vai ser um ano que ela se submeterá a um teste porque o quadro internacional mudou, a economia internacional mudou, o mundo vai andar mais devagar e isso terá reflexo no Brasil. Vamos assistir a um processo na economia internacional de certo acirramento da competição, o Brasil vai ter dificuldade de acessar alguns mercados, os fluxos financeiros vão ser afetados por essa crise na Europa que em ultima instância é uma crise que se reflete nos bancos, nos sistema financeiro. Então, vamos ter um ano para economia, de certo modo, conturbado no cenário internacional. Agora, o Brasil tem um mercado interno forte que assegurará, de certa maneira, a possibilidade de continuar crescendo, mesmo que a uma taxa mais baixa.
O outro teste a que a presidente vai se submeter é o teste da eleição. Ela terá uma agora uma minirreforma ministerial e vem aí o problema das eleições em que a presidente naturalmente sendo filiada ao PT vai ter que ter uma postura que leve em conta os interesses dessa ampla coligação de forças que lhe apoia. Então é sempre uma dificuldade poder transpor esse processo eleitoral. Acho, portanto, que vamos ter um ano que nos colocará esses desafios, mas tenho sempre uma posição otimista. Acho que vamos conseguir, apesar de tudo, fazer uma travessia de 2012 com custos econômicos e sociais relativamente básicos.
[T] Geovani Siqueira [F] Gabriel Oliveira

