Opinião

Pauta para reorganização política do país

*Luiz Carlos Borges da Silveira

Passada a turbulência causada pelo processo de impeachment presidencial, cassação do presidente da Câmara Federal e a Operação Lava Jato se encaminhando para o final é o momento de se pensar seriamente no país e estabelecer uma ampla agenda para reorganização política e estrutural. Nesse contexto, evidentemente, estão às reformas previdenciária e trabalhista, já em discussão, e as demais que há tempo são citadas e nunca enfrentadas, como a tributária, a fiscal e a política, esta recebendo apenas remendos pontuais.

É necessário rever dispositivos como o sistema de indicação de ocupantes de cargos no Judiciário e Tribunais de Contas, priorizando funcionários de carreira e adoção de forma para que a escolha seja pelos membros dessas instituições sem influências externas, especialmente políticas. Quanto aos Tribunais de Contas, há na Câmara Federal uma proposta de Emenda à Constituição estabelecendo novos critérios que acabam com nomeações políticas que nem sempre atendem requisitos básicos para a função. O problema é que a matéria não anda, está em análise há mais de três anos.

A legislação eleitoral precisa de revisão para eliminar algumas distorções que não contribuem para a modernização e dinamização do processo. O instituto do foro privilegiado foi ampliado e se tornou obstáculo quando se trata de aplicação de punições a políticos que cometem desvio de conduta, ensejando protelações que levam à sensação de impunidade, por retardar a tramitação dos processos, aplicação das penas e cumprimento das sentenças condenatórias. Não faz muito, tivemos exemplo disso com o Mensalão, que quase chegou à prescrição.

Ainda na reforma político-eleitoral há necessidade da cláusula de barreira, medida imperativa para fortalecer os partidos. O dispositivo, existente em vários países, no Brasil foi aprovado em 1995 e valeria a partir das eleições de 2006, mas não chegou a ser aplicado, porque antes do início da sua vigência foi declarado inconstitucional pelo STF. Agora, tramita nova PEC (Proposta de Emenda Constitucional) já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Esse projeto prevê uma cláusula de barreira com o objetivo de limitar o número de partidos em funcionamento no Congresso.

A norma tem inúmeros aspectos positivos, sendo o mais importante a natural eliminação de partidos sem representatividade, os chamados ‘nanicos’, criados e mantidos por lideranças que exercem amplos poderes sobres a siglas, usadas para interesses próprios. Basta observar que, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), trinta e cinco partidos estão registrados. Desses, apenas uma dúzia tem estrutura e representatividade nacional, os demais o eleitor desconhece até o nome. Vivem de coligações, geralmente barganhadas. Recente levantamento indica que se a cláusula de barreira estivesse em vigor o país teria entre doze e quinze siglas partidárias.

Um dos empecilhos para aprovar essa restrição é o argumento de que pequenos partidos (geralmente corporativos) acabariam. As lideranças, inclusive de partidos mais expressivos, fazem proselitismo porque têm interesse na agregação dessas siglas em coligações. E falando em coligações, também estas deveriam ser proibidas nos pleitos proporcionais, para que os partidos se vissem obrigados a uma ampla estruturação a fim de disputar eleições com suas próprias condições, sem se apoiar em uma agremiação maior. Seria um dispositivo limitativo, pois as siglas sem potencial sucumbiriam de forma natural.

Mas esse não é o principal ponto negativo. As coligações são feitas por interesses de lideranças e muitas vezes entre partidos sem identidade ideológica entre si. Também são feitas em função de interesses regionais, partidos que em determinados estados ou municípios são adversários, noutros estão unidos, revelando que não têm linha ideológica e programática própria. Aliás, o assunto também é tema de debate no Congresso em torno de um anteprojeto no Senado que prevê a proibição de coligações partidárias nas eleições proporcionais (deputados e vereadores). Evidentemente, é longo o caminho entre a apresentação e a votação, o que demanda discussões e negociações, pois a maioria dos políticos não aceita mudanças que não lhes interessem, mesmo que sejam benéficas ao sistema.

Entendo, também, que o país precisa de uma nova lei dos partidos políticos, inclusive para estimular a participação dos brasileiros na política. Para citar apenas um exemplo, basta observar que os diretórios, núcleos dos partidos, são, via de regra, manobrados por lideranças de acordo com seus interesses e objetivos. O diretório hierarquicamente maior age discricionariamente sobre o menor (o nacional sobre o estadual e este sobre os municipais) e assim são formadas, instaladas e dissolvidas comissões provisórias. Essa situação passa à sociedade péssima imagem dos partidos e por consequência inibe o interesse do cidadão em participar da política, porque filiar-se a um partido é o caminho para exercício do direito de cidadania através da política. Resumindo, esta é uma pauta mínima que pode e deve ser acrescida, inclusive com ações positivas do governo que independem de legislação, mas sim de projetos e programas específicos. Se isso for feito, a classe política sairá fortalecida, reconquistará o respeito e o apoio da população.

Acredito que este é o momento, especialmente depois da Lava Jato, inegavelmente um dos maiores acontecimentos da atualidade, vigoroso passo à frente na restauração da credibilidade e da confiança nacional de que o Brasil pode ser um novo país em termos de decência política e de seriedade na gestão pública. No que diz respeito ao término da impunidade de maus políticos e gestores públicos, a Lava Jato é um divisor de águas. Entretanto, passar o Brasil a limpo não se restringe apenas em punir os desvios, mas adotar e implementar programas de interesse nacional, atualizar a legislação política e promover as reformas estruturais. E a população deve se empenhar em participar da vida política e colaborar na fiscalização. Tudo isso depende de vontade política e espírito público.

 

*Luiz Carlos Borges da Silveira é empresário, médico e professor. Foi Ministro da Saúde e Deputado Federal.

Os aspectos para atuação do professor em sala de aula

*Ana Regina Caminha Braga

Precisamos levar em consideração que o professor, quando está em sala de aula, tem consigo um cenário histórico, certas perspectivas que constituem o ser humano.  E, por isso, ele precisa considerar que o aluno/aprendiz não é apenas cognição, levando em conta também esses critérios, a afetividade e o meio em que cada um vive, para que assim, ele possa conhecê-lo melhor e acompanha-lo de maneira adequada desde o seu planejamento até sua atuação em sala.

Se em sala de aula o professor tem 30 alunos e nenhum apresenta alguma peculiaridade, como o docente deve atuar? Por outro lado, como funciona sua atuação mediante a presença de um aluno com dificuldade de aprendizagem ou deficiência? Vale lembrar aqui, da metodologia de ensino usada por anos, antes de começarmos a mudar esse olhar sobre quem aprende. Antigamente, o professor estava em sala de aula, apenas voltado e preocupado em colocar o conteúdo no quadro, para que os alunos pudessem copiá-lo e assim estudar para as atividades e provas.

Ou seja, dentro dessa análise não havia um espaço e momento dedicado ao diálogo do professor com os alunos e vice-versa para que fossem apontadas as dificuldades ou até mesmo as novas aprendizagens e ideias que pudessem surgir. Atualmente, as escolas tem aprimorado a visão e aumentado à atenção a essa questão, considerando as demandas dela e da comunidade como um todo.

Precisamos analisar desde as questões cognitivas, afetivas até as sociais, as quais demandam um tempo de aprofundamento teórico, estudo, formação e consciência de todas as etapas a serem cumpridas até o momento do aprender do aluno.

Por isso, é tão importante levar em consideração as especificidades existentes em sala de aula com o objetivo não somente da escola, mas principalmente do professor compreender os diferentes estilos de aprendizagem, ritmo e tempo dos alunos presentes na sua turma, o que vai impactar no planejamento das aulas, da realização e condução das atividades para atingirem os objetivos traçados.

*Ana Regina Caminha Braga (https://anareginablog.wordpress.com/) é escritora, psicopedagoga e especialista em educação especial e em gestão escolar.

 

Governo está perdendo a hora das reformas

*Luiz Carlos Borges da Silveira

Nos próximos dias deve voltar à discussão no âmbito governamental a proposta de reforma trabalhista, objetivando com isso mais um avanço no sentido de estabelecer através de normas modernas uma nova política de relacionamento entre capital e trabalho.

O governo pretende encaminhar até o final do ano ao Congresso Nacional três propostas de alteração na legislação trabalhista. Essas propostas são: regulamentação da terceirização, conversão do Programa de Proteção ao Emprego (PPE) em política permanente, além de algumas alterações pontuais na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Tendo em vista que o tema envolve interesses de amplo leque do setor laboral é naturalmente delicado e qualquer sinalização de mudanças acabe gerando debates muitas vezes acerbados com visível mescla de ideologia, desconfiança e desinformação.

Por isso, entendo, seria conveniente tratar de vez de uma efetiva e ampla reforma, não apenas remendos. A CLT data de 1943, época do Estado Novo de Vargas. O mundo hoje é diferente de 70 anos atrás, a sociedade idem e as relações trabalhistas não escapam aos avanços. Alterações pontuais, tímidas, não resolvem, apenas adiam soluções de problemas.

Já que o governo vai enfrentar oposição e questionamentos das centrais sindicais, que transforme a proposta em reforma geral, necessária e inadiável, e promova amplo debate que venha a produzir, na depuração dos temas, uma moderna e certamente duradoura nova CLT. Para compreender isto basta entender Maquiavel, de que as medidas amargas devem ser administradas de uma só vez.

Os três itens deste novo remendo proposto pelo governo são importantes, principalmente no caso da terceirização das atividades fins, inclusive no serviço público, mas não passam de emendas.

A discussão para entendimento das partes vai mais além. É importante que o governo não se posicione como tutor, mas mediador, como acentuou o atual Ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira: “Capital e trabalho precisam sentar-se à mesa, porque são eles que melhor conhecem a realidade de cada um, de cada setor da economia, e, por isso, podem construir a melhor solução, principalmente nos momentos de crise, para evitar o desemprego. Precisamos modernizar a CLT para estabelecer um ambiente de diálogo e uma norma que configure a fidelidade. Isso é importante para os investidores que querem segurança nos contratos e para os trabalhadores, principalmente neste momento em que o Brasil passa por um período delicado”.

Evidentemente, a melhor forma de se conseguir o ponto de equilíbrio em cada setor produtivo seria prestigiar e valorizar a negociação coletiva, permitindo que empresas e sindicatos, que mais conhecem cada segmento, estabeleçam as condições ideais ou possíveis de trabalho.

Concluindo, é oportuno considerar que o país precisa de outras reformas importantes e polêmicas, como a da Previdência Social, já encaminhada. Deve o governo avançar paulatinamente cada uma delas. Se isso for feito já será notável ganho.

Penso que seria relevante que este governo interino lançasse as bases das reformas, inclusive política, eleitoral, tributária e fiscal. Caso a interinidade se confirme, terá deixado os projetos encaminhados e isso será um legado de alto valor; caso se confirme a efetividade, terá oportunidade de dar bom termo às reformas. Em ambos os casos, o Brasil agradecerá.

*Luiz Carlos Borges da Silveira é empresário, médico e professor. Foi Ministro da Saúde e Deputado Federal.

 

Homicídios: a triste lição nordestina

*Bene Barbosa

De acordo com o Mapa da Violência 2016, das 150 cidades com maior taxa de homicídios por uso de armas de fogo no Brasil, 107 estão no Nordeste. Uma triste realidade que traz, ou deveria trazer, à tona duas verdades incontestes: o desarmamento fracassou e desenvolvimento econômico não significa menos crimes.

Desde os anos 2000 a região nordestina é destaque nas tais campanhas de desarmamento com adesão notável dos cidadãos honestos que, de boa-fé, entregaram armas e munições ao governo que prometeu em contra partida, além do pagamento de alguns trocados – e que em muitos casos nem isso cumpriu dando o mais puro e simples calote -, trazer mais policiamento, mais proteção, mais segurança ao cidadão. Promessas, promessas…

Na questão da venda legal, o nordeste também se destaca no cenário nacional e de acordo com dados  da Polícia Federal essa é a região com o menor número de armas legais vendidas e registradas. Não deixo de fora também o grande número de armas apreendidas pelas forças policias, muitas vezes de sitiantes e pequenos comerciantes que sem outra opção as possuíam de forma ilegal para sua proteção. O desarmamento foi um sucesso ao desarmar o cidadão, mas como vemos pelos números de guerra civil, não passou nem perto de impedir que criminosos continuassem se armando. O desarmamento foi um fracasso e ponto final.

Outro paradigma quebrado é a velha questão apresentada por muitos sociólogos de que o desenvolvimento econômico e a melhor distribuição de renda são fatores primordiais para redução da criminalidade. Oras, se isso fosse verdade, com a expansão de polos econômicos, melhor distribuição de renda e do crescimento do poder aquisitivo nos últimos anos, a região nordestina, mais uma vez destaque também nesse quesito, teria uma obrigatória redução em suas taxas criminais. Não aconteceu. Muito pelo contrário! Derrotada a tese de esquerda que o crime é fruto da desigualdade social, uma tese preconceituosa que acusa os mais pobres de serem os responsáveis pelo cometimento de crimes.

Como bem define o psiquiatra e escritor britânico Theodore Dalrymple, a raiz da criminalidade não está na pobreza material e sim na miséria moral, na certeza da impunidade e no discurso de que o bandido, aquele que puxa o gatilho ou empurra a faca não é responsável única e exclusivamente pelos seus atos.

Que dentro dessa catástrofe nordestina, imbuídos com uma coisa chamada honestidade intelectual, nossos governantes possam aprender com essa triste lição e mudar de uma vez por todas o foco da nossa (in) segurança pública.

*Bene Barbosa é especialista em Segurança Pública, presidente do Movimento Viva Brasil e coautor do livro “Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento”. 

Artigo: “A última flor para você”

(In memoriam de Doralice Martins)

Carlos Alberto Martins

 

 Ai! Juazeiro quantos espinhos me tem ferido o coração!…  Vai-se mais uma irmã… Deus – Comodatário pontual – hoje veio buscar a joia mais preciosa que nos havia emprestado por tão pouco tempo! Ai Juazeiro!… Quem me dera poder renovar esse valioso empréstimo ou pugnar até a última Instância pelo adiamento dessa devolução, mesmo sendo Deus, Ele próprio, o Comodatário e o Julgador Supremo desse comodato.  Ah! “setecentas léguas vezes setecentas, com os pés descalços, no chão duro, andaria eu” para trazer você de volta para nós. A joia mais querida, minha segunda mãe, não por ser a mais velha, mas, sobretudo porque tínhamos uma cumplicidade de grandes amigos. Desde pequeno. Tão grande era o meu apego que quando você casou (tinha eu dez anos) me levou para sua viagem de lua-de-mel e com você fiquei morando até a adolescência. E o meu primeiro presente de Natal? Uma caixa de carimbos cobiçada, que vi numa loja, para brincar de escola, foi você quem me deu, a fim de que eu não perdesse a crença em Papai Noel nem me entristecesse por nosso pai estar desempregado. Bem depois, entre risadas, você confirmou a minha desconfiança: o bom Velhinho era você. E minha Faculdade, financiada por você e mãe?  Suas lágrimas no dia de minha Colação de Grau sabiam a felicidade e vitória. Sempre assim: por trás de cada realização estava o seu dedo e o seu aplauso. E, em cada queda, a sua mão forte para me levantar e a sábia preleção de encorajamento e esperança. Inteligente, possuía o dom de aconselhar, de orientar, de predizer, por isso eu a chamava de pitonisa. Quantas vezes, em Caruaru, depois em Recife, tomado de assalto pela náusea existencial, quando nem os colegas nem o carinho dos amigos mais íntimos nem barzinhos que eu adorava, nem telefonemas, nada me consolava, abandonava então as aulas em pleno período de provas, sob os protestos dos colegas, e me mandava para encontrá-la, em Juazeiro ou Caatinguinha, porque somente você era capaz de matar minha saudade, de me deixar feliz, de me afugentar a solidão. Quanta prova realizei em segunda época por conta disso! Passávamos a noite conversando, como se não nos víssemos há anos, bebendo café, (eu esvaziando carteiras de cigarro) ante o espanto de seu marido, estremunhado: “não sei aonde vocês acham tanto assunto pra conversar, vão dormir, o dia ‘tá quase amanhecendo”. E íamos a todos os lugares juntos, como amigos que se gostam de verdade, aproveitando bem o tempo, já esgotado, antes de eu voltar para os estudos. Ah, quantas lembranças!… E agora que você se foi? Que farei com o vazio, com a saudade?… Minha amada Rachel disse que “falam que o tempo apaga tudo. Tempo não apaga, tempo adormece.” Então a saudade vai dormir, mas quando de repente ela acordar e doer em mim?… Que remédio lhe darei se em nenhum lugar do mundo existe remédio para a saudade?… Ah, mana, que horrível desconsolo será para esta minha vida sem você!… Quando eu voltar aqui, “saudades irei chorar dentro da casa vazia!”…

“Ai! Juazeiro, como dói a minha dor!”…

Talentosa, era decoradora nata, de bom gosto e requinte, vestia-se bem, ia ao salão somente às segundas-feiras, dizia que era para passar a semana arrumada, desenhou plantas e construiu casas e eu a chamava também de arquiteta sem diploma. Amava as flores, sobretudo as vermelhas, a pintura (os quadros que pinto, óleo sobre tela, você compraria todos se eu deixasse, acho que era mais uma forma de me incentivar, era minha admiradora número um, coisas de irmão “coruja.” Olhe, mesmo sem vontade, continuarei pintando por você). Tinha a resignação de santo e o destemor de herói. Sua caridade não conhecia limite, era incondicional. Entre as inúmeras praticadas, duas me marcaram profundamente: ir a Salvador buscar o corpo em decomposição de Seu Expedito (marido de D. Eurides e pai de filhos pequenos) porque ninguém queria ir. Você foi, trouxe-o e deu-lhe enterro digno. Outra: as suas inúmeras idas a Recife (de ônibus) com Jane, garota da roça, contando oito anos, para tratá-la de um câncer no Hospital daquela capital, deixando marido e filhos pequenos sozinhos, inclusive um filho especial. Sua generosidade beirava a prodigalidade. Nunca nenhum necessitado bateu à sua porta e saiu sem ser servido, custasse-lhe que custasse, havia de servir. Alimentou famintos, vestiu flagelados, intercedeu por transgressores humildes junto a autoridades. Por tudo isso uma multidão pesarosa compareceu ao seu velório e acompanhou o seu féretro.

Criada à sombra do meu Juazeiro, onde residia, estudou no Colégio Rui Barbosa, no Paulo VI e na antiga Escola Estadual de Petrolina, onde se formou professora. Exerceu o magistério em Caatinguinha, seu povoado natal, onde foi sepultada. Diretora por duas gestões e líder comunitária de excepcional carisma, quando professora, usava o próprio salário na compra de fardas e sapatos (conga) para os alunos, filhos de pais pobres. Queria vê-los bem asseados e devidamente uniformizados. Tal gesto tornou-se público e mereceu a gratidão da comunidade e o aplauso dos poderes executivo e legislativo municipais da época. E as comoventes festas do Dia das Mães, Dia dos Pais, das novenas de maio e junho?  A decoração belíssima da igreja, do altar, do andor para a procissão da padroeira, o desfile no Dia da Pátria (nunca houvera antes), os estrondosos festejos do São João que atraíam gente até da cidade? Tempos áureos aqueles. Depois de seu retorno a Petrolina, onde passou a lecionar, Caatinguinha nunca mais foi a mesma, mergulhou no esquecimento.

Ai! Juazeiro, o dobre chorado dos sinos lamenta a perda enorme!… Lamentai também por nós e por este mundo individualista, tanto a necessitar de gente que se doe e prense no próximo como ela sempre o fez!

Mãe de sete filhos, avó de muitos netos e de três bisnetos, embora tivesse apenas 65 anos, amiga de seus amigos, boa irmã, filha extremosa, muito fez por todos e tão pouco fizeram por você, desde que ficara enferma – vítima de derrame – logo após a morte súbita de seu companheiro, seu primeiro e único namorado com quem se fora encontrar exatamente no dia 12 de junho. Teria sido saudade?…

Disseram-me que você estava bonita e serena, parece que estava dormindo. Não quis ir ver minha heroína inerte dentro de um caixão – obra de nauseativo mau-gosto, a mais feia da marcenaria que alguém já inventou para trasladar os mortos – tampouco suportaria vê-la descer à sepultura, e encerrado sob a estupidez de um monte de terra seu coração tão grande e tão bom.

Não! Recolhi-me ao quarto, acuado como indefeso bicho ferido, gemendo a minha dor, dentro da noite, sozinho, até porque a dor é nossa, experimental, intransferível, por isso neste momento não precisamos de ninguém – somos todos igualmente impotentes – precisaríamos sim que o morto querido estivesse vivo e interessado por nós, o que, de fato, é impossível, “a morte não existe para os mortos,” não é Drummond?… Precisamos, portanto, nesta hora difícil e irremediável, para os que cremos, apenas de Deus, da esperança: a fé em Suas promessas.

Assim, não quis lhe dizer adeus. Guardei meu lenço pesado de lágrimas, que não tive força para acenar em despedida, mesmo porque não há despedir, se um dia, quem sabe próximo ou distante, conto com a possibilidade de reencontrá-la. Esta esperança será o remédio para minha saudade; o meu consolo único de, então, ser reparado todo o prejuízo que a sua ausência me causou.

Olhe, hoje, dia de sua viagem derradeira, leve com você esta flor vermelha que amanheceu molhada de pranto, tingida com o sangue do meu coração transfixado pelo espinho do seu trespasse. A última flor – púrpura como a Príncipe Negro, sua rosa predileta, nascida da mágoa e do amor do meu coração, não fenecerá enquanto eu viver – será perpetuada pelo orvalho da minha saudade.

Vá com Deus, minha irmã. Vá em paz. E até um dia.

Juazeiro, 12 de junho de 2016.

O temor do gestor e a agonia da UPE Campus Petrolina

A manchete traduz o que o Campus da UPE em Petrolina está passando desde 2015. Os cortes sucessivos no orçamento têm afetado diretamente serviços essenciais, que devem ser prestados aos quase três mil alunos matriculados na graduação, em cursos de Licenciatura e de Saúde.

Um claro exemplo desta vexatória situação é a visita aos locais de estágios, que tem sido prejudicada face ao estabelecimento do teto de gastos com combustível. No início dessa gestão em 2013, o valor disponível neste item era de R$ 1.800,00 para os três veículos da Unidade. Neste ano de 2016, o limite está orçado em R$ 500,00. Destacamos ainda, que o Campus, no período noturno, por causa do decreto de contingenciamento do Governo do Estado, não oferece aos seus discentes a possibilidade do esporte em quadra, pois seus refletores estão desligados. A escuridão, a partir das 22h30, toma conta do espaço dos prédios onde funcionam as salas de aula e os laboratórios, pois as luzes dos postes precisam ser desligadas para atender o referido decreto.

Na abertura desse semestre letivo, apresentamos um comparativo do nosso fluxo de caixa até o mês de julho nesses quatro anos de gestão. Para termos uma ideia do descalabro da redução no financiamento do Campus, vejamos a comparação: de janeiro a julho de 2013 as despesas executadas foram de R$ 1.364.817,94; no mesmo período desse ano as despesas executadas foram de R$ 639.233,67, perfazendo uma diferença de R$ 725.584,27. Como gerir, com essa redução, um Campus em que circulam, por semana, cerca de sete mil pessoas? Como oferecer um serviço de qualidade aos que dependem desta instituição? Como manter o otimismo e a esperança de uma boa gestão?

Outro problema gravíssimo que tem ocorrido é o que refere à liberação das Programações de Desembolso – PDs, que estão lançadas no e-fisco desde 2015 e não têm sido pagas pela Fazenda do Estado. No Campus Petrolina existem notas de fornecedores que foram emitidas no dia 06 de agosto de 2015 e que estão para ser pagas “ad infinitum”.  Os funcionários do Setor de Compras não têm mais justificativas para os fornecedores, que cobram a quem solicitou os materiais/serviços e não o fazem diretamente à Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco, órgão liberador do pagamento. Essa situação tem elevado o nível de desconfiança dos fornecedores, ao ponto de a Universidade ter dificuldades na contratação ou compras de materiais necessários à realização das suas atividades fins. Orçamento para a realização de processos licitatórios não tem sido liberado, devido a esse estado de inadimplência do governo estadual.

A participação em reuniões nas Câmaras de Graduação, Pós-Graduação, Extensão; reuniões de Conselhos foram afetadas por causa do não pagamento à empresa fornecedora de passagens aéreas.  Há três meses que o Diretor não viaja a Recife para participar dessas importantes reuniões.

Professores que submeteram projetos aos Programas de Fortalecimento Acadêmico – PFAs e foram aprovados em 2016, estão desestimulados ao saberem que os recursos não têm sido liberados. Muitos já admitem não mais apresentar as propostas que viabilizam os componentes curriculares e as inovações pedagógicas. A Pesquisa e a Extensão, igualmente, têm sido prejudicadas pela não liberação dos recursos que lhes são inerentes, inclusive a partir de projetos aprovados. É preciso lembrar ainda, que mesmo com a realização de concursos, ainda estamos contratando precariamente trinta e nove professores com carga horária de vinte horas para os semestres letivos. Desde 2015 não conseguimos iniciar os semestres em tempo hábil, causando prejuízos incomensuráveis à área do ensino, tão importante no processo formativo.

Para completar o quadro caótico em que se encontra a UPE Campus Petrolina, os recém-professores nomeados nos meses de abril e maio desse ano, tiveram o desprazer de ver retirado de pauta do Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão – CEPE, seus pedidos de aprovação da Dedicação Exclusiva. Todos estes docentes fizeram concurso em 2015 e foram atraídos, especialmente, por causa da complementação de salário, prevista nos editais, mediante o regime de Dedicação Exclusiva. O que era estímulo, virou desesperança e muitos já estão à procura de outros lugares para prestarem concurso.

A agonia do Campus tem proporcionado um grande temor no Gestor, o que tem gerado a possibilidade de uma iminente paralisação das atividades, devido às dificuldades da prestação de serviços das atividades-meio. Afinal de contas, não se faz Ensino, Pesquisa, Extensão e Gestão sem que as atividades-meio funcionem bem. Resta-nos apelar ao bom senso do governo do Estado, no sentido de ouvir o apelo do Sertão por uma Universidade Pública, que para sustentar a qualidade tão penosamente conseguida, necessita que seu mantenedor cumpra a sua parte.

Que a agonia não se transforme em temor e que o tremor de nossa voz possa ecoar aos que lutam por uma formação combativa.

Petrolina, agosto de 2016, início do segundo semestre letivo.

Prof. Moisés Almeida

Diretor da UPE Campus Petrolina.

O equívoco ambiental de Pernambuco

Julio Lóssio*

Ao longo dos últimos meses temos tido um grande tensionamento entre os maiores municípios e o governo do Estado de Pernambuco. Tal fato dá-se em virtude da sua intenção, através da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade – SEMAS, em reconcentrar boa parte do processo de gestão ambiental, trazendo para si a definição do que é caracterizado como impacto local.

A nossa preocupação dar-se no fato de que essa questão é emitente responsabilidade municipal, não cabendo a nenhum outro Ente federativo, seja Governo Estadual ou Federal, tratar de questões dessa natureza em virtude de ferir de morte a autonomia municipal garantida no artigo 18 da constituição Federal.

Esse interesse mostra um imenso equívoco pois não existe a construção, elaboração ou execução de políticas públicas distante das pessoas envolvidas porque, normalmente, torna sua eficiência extremamente questionável e de baixo resultado.

Buscar reconcentrar boa parte da gestão ambiental no âmbito do governo do Estado de Pernambuco mostra também um grande erro, visto que, impede uma interiorização do processo de crescimento e desenvolvimento econômico.

Foi com esse objetivo que criamos o grupo do G-20–Semiárido com o intuito de discutir a necessidade de descentralização do processo de desenvolvimento do Nordeste da faixa litorânea para o interior, sobretudo no semiárido.

A maior parte do território de Pernambuco está localizada na região semiárida, uma área de potencialidades e de muitas fragilidades, porém, de poucas ações do Governo do Estado. A descentralização da gestão ambiental, a partir dos municípios, leva as políticas desse segmento mais para perto dos cidadãos. Um exemplo é o caso do Programa Municipal das Unidades de Conservação da Caatinga – UCCA que já conservamos 428 hectares.

Assim, a reconcentração de parte da gestão ambiental no âmbito do Governo do Estado, além de um grande equívoco, será um grande golpe na autonomia dos municípios no seu desenvolvimento sustentável.

*Prefeito de Petrolina

 

Ao poeta Chico

 Carlos Laerte

Quis a mão divina do maior poeta que o mundo deu, ser o Dia da Poesia a mesma data que Chico nasceu. Filho da Paraíba e  nordestino como todo irmão seu, este Chico, talvez por descender das pedras, pois Pedrosa é o sobrenome que acolheu, veio comemorar em Petrolina o aniversário mais bonito que a poesia já concebeu.

Tinha mesmo que começar em versos esta história que agora vou contar. Foi bonita a festa dos 80 anos do amigo e mestre Chico Pedrosa, comemorados neste 14 de março – mesma data em que nasceu, no ano de 1847, o poeta Castro Alves, e por isso mesmo consagrado o Dia da Poesia. O evento, ápice mais esperado da 2ª edição do Encontro de Educação e Cordel de Petrolina – Edu…Cordel, ocupou todas as poltronas do Teatro Dona Amélia (Sesc de Petrolina). Passava um pouco das 20h, quando o idealizador do encontro e poeta Maviael Melo deu as boas vindas ao público, já chamando ao palco a primeira das atrações, o próprio Chico Pedrosa. Daí em diante uma sucessão de agradáveis encontros poéticos tocou a noite feito vara curta, que emociona quando junta o verso à musicalidade. E tome poesia no Sertão Caboclo em Maurício Menezes, na emoção à flor da pele de Lirinha e no dedilhar/delirar de Renan Mendes, Edésio César e Silvino Júnior. Sanfona, violão e percussão a dizer pra uma gente atenciosa como toca a amizade quando bate forte o coração. E vem mais Mariano Carvalho, Marcone Melo e João Sereno, clareando a noite e serenando o teatro como se o telhado estivesse todo cheio de furos, brechas falantes. É, deu pra ver as estrelas e a lua quando Chico falou os versos seus e Clênio Sandes declamou a mulher e a natureza dos filhos que não são ateus. Um amigo que não estava presente, Adilson Medeiros, um dia me disse que o poeta é aqui na terra o irmão mais moço de Jesus. Acho que foi por isso que estávamos tão em paz quando o violão de Mario Ulloa cruzou as cordas do bandolim de Armandinho Macedo. Por um momento, parecia um Condor, que planando qual Vim Vim, tocou nossa alma deixando em tudo um pedacinho do céu. E nesse clima de verdades e simplicidade, de rimas e oralidade nordestina, nos despedimos cantando parabéns pra você Chico Pedrosa, que poetizando a natureza e o humano diz muito da vida e praticamente tudo de todos nós. A 2ª edição do Encontro de Educação e Cordel de Petrolina – Edu…Cordel, começou na sexta-feira (11) na escola NM 11 do projeto de irrigação Senador Nilo Coelho com o lançamento de um livro produzido pelos alunos das oficinas de cordel. Depois, um bate-papo e uma cantoria com os artistas Josemar Pinzoh, João Sereno e Mariano Carvalho. A segunda ação, aconteceu na segunda-feira (14) no Teatro Dona Amélia com um bate-papo reunindo pesquisadores, cantadores e educadores. Para falar sobre música, cordel, educação e cidadania, foram convidados Armandinho Macedo, Mário Ulloa, Socorro Lacerda, Maviael Melo e o poeta Chico Pedrosa. E pra encerrar esta história, peço emprestado estes versos que Maviael Melo fez, deixando escrito nas margens o que o povo já aprendeu: “Quem desenha num verso um luar/ E descreve com rimas a emoção/ Tem também o poder da criação/Que deságua no rio de alegria/ O Velho Chico emana poesia”.

Comece 2016 dando um up na sua vida profissional

*Jeronimo Mendes

Chegou o ano de 2016 e com isso novas metas e sonhos são necessários, quer na vida pessoal, quer na vida profissional.  Neste ano que começa, é bom que usemos essa aura de motivação que cerca essa época do ano, e usá-la ao nosso favor. Como? Estabelecendo metas e procurando manter-se motivado o ano inteiro. Curioso?

Está é a palavra que devemos ter em mente em 2016. É ela que nos motiva a acordar todos os dias e correr atrás de nossos sonhos. As maiores mentes do mundo se tornaram o que são porque sempre foram motivadas, positivas e tomaram a iniciativa. Lutaram e trabalharam para conquistar seus objetivos.

Não existe almoço grátis, diz o ditado. Enganam-se aqueles que acreditam que atores, jogadores de futebol, ou comediantes, ou qualquer que seja a profissão, não tenha trabalhado, ou esteja lá por sorte. Até os jogadores de futebol que costumam receber críticas por seus salários, eles trabalharam muito para chegar aonde estão.

Por isso em 2016 procure manter-se mais motivado. Comece o dia com um bom pensamento e confie em si mesmo, pois até as mais geniais das invenções deram muito errado antes de dar certo. Mas não basta ter pensamento positivo e confiar em si mesmo se não houver uma competência trabalhando a seu favor: Atitude.

Estabeleça  Metas

Comece com a reflexão: o que é que você deseja? Aonde você quer chegar? Como alcançar este objetivo? Você está preparado para estes objetivos? E se não estiver, por onde começar?; é importante que você pense sozinho em todos esses pontos ao invés de “partir para o abraço” e acabar errando.

Após isso, anote tudo em um papel. Estabeleça objetivos maiores e outros menores, submetas, cursos que você terá de fazer para alcançar estes objetivos. Anote tudo e sempre que possível marque o seu progresso, risque o que já alcançou, faça anotações, adicione novos objetivos. Se possível com outra caneta para que depois você saiba qual era a ideia original.

Pense sempre positivo

Quem não acredita é que não sabe o que está perdendo. Mas a força do pensamento ajuda sim. É como se fosse uma lei do universo, assim como a gravidade. Ou você acha que grandes empreendedores conquistaram seus impérios na base do mau humor e do pensamento negativo?

Acredite no que você deseja e vamos combinar de começar o 2016 assim. Com motivação e pensamento positivo e muita, mas muita atitude.

*Administrador, coach, escritor e palestrante.

Homenagem aos que se foram

*Gabriel Bocorny Guidotti

O Dia de Finados serve como alento aos vivos que desejam prestar homenagens aos que já se foram, mas também para refletir sobre algumas questões existenciais. De onde viemos? Para onde vamos? O ciclo se encerra com o último suspiro? Quem nos receberá adiante? Ao compasso dos questionamentos, muitos artifícios surgem pelo caminho – a fé, a religião, a superstição – a fim de evitar a frustração de respostas insípidas.

De fato, não há resposta inequívoca que explique o fim. Certo mesmo é que o mundo continua, na perspectiva outras pessoas, de outras sociedades. Especular além disso ameaçaria o poder do agora e da capacidade que cada ser humano tem de superar suas perdas e suplantar suas dificuldades. Nada nem ninguém dura para sempre. Ainda assim, é possível doutrinar a morte. O indivíduo será lembrado pelo legado que deixou.

Engana-se quem vincula a vida à harmonia biológica. É possível deixar este mundo muito antes. Basta a ausência de propósito. Sem objetivos, somos nada, menos que um sopro de vento. Quem deixa de viver, vivo, descarta as próprias potencialidades. Os mortos, ao menos, regozijam-se de descanso imaculado. Os mortos-vivos, bem… estes permanecerão dentro do torvelinho do sofrimento, incapazes de enveredar por qualquer direção diferente daquela que sua convicção incorrigível aduz.

O Dia de Finados é momento de prestar tributos. Rememorar, relembrar o carinho e, principalmente, celebrar a continuidade. Um olho se fecha, dois se abrem, eis a aventura humana na terra. E a pessoa que não mais se vê, é possível senti-la. Ela está ali, de um modo ou de outro. Muitos irão percebê-la. Outros irão ignorá-la. Mas ela está ali, compartilhando energias universais que nós, seres noviços, somos incapazes de compreender.

A humanidade é uma grande árvore que renova seus frutos com o passar do tempo, dando e tirando, passando por intempéries, mas ao final mantendo sua incolumidade. Já quebramos galhos, já vimos o nascimento de brotos. Neste dia, sem tristeza. Quem foi, foi. Nada se pode fazer. Quem ficou, entretanto, saiba que sempre há tempo para construir novos destinos. Não jogue a toalha. Renasça na vida para que sua alma dure a eternidade.

*Bacharel em Direito e estudante de Jornalismo/Porto Alegre – RS